Pedaços
Se bem entendo este meu ser intemporal,
Seu coração, que é seu pedaço de vergonha,
Uma consciência humana, embora com a razão,
Refreia o ímpeto da vida etérea e sonha
Com a marginalidade da existência. Tal
Ato só tem explicação se tu, leitor,
Puderes ver que o coração deste meu ser
Intemporal, embora altivo, sente que errou
Ao contrapor a sua essência; e agora quer
Sentir-se, no erro imaginado, superior.
Insistência
É… talvez haja mesmo uma necessidade
De levantar a espada e bradar a independência,
Uma identificação com uma formalidade
Que nós acreditamos ter muita importância
Mas que talvez não seja mais que uma suspeita,
Um desafio pro Pensamento. Sim, talvez
Seja também um nomear externo, um enfeite
Numa sala vazia. Mas essa viuvez
Não tem moral no fim da história. E, dessa forma,
A desaparição, a fina subtração
Do ar passa a ser o principal cuidado da alma
Humana; e as sensações do mundo, uma ilusão.
Eu não entendo esse pessoal contemporâneo…
Sempre à cata de significados, sempre tentando dominar a arte em vez de deixar que ela flua por seu sangue, por sua alma.
É incrível como há gente que se denomina artista por aí, fazendo as maiores bobagens do mundo, como passar um traço numa tela em branco ou valorizar um bando de espermas jorrados aleatoriamente num chinelo. Prefiro um porco empalhado. Ao menos, tem a intenção de satirizar a concepção artística alheia.
Quando questionado, esse pessoal se desdobra em mil para explicar o que a “sua arte” significa. Elabora ene teorias; e, por fim, a obra acaba não passando de um mero conceito, de um mero significado, que não deixa vazar sensação alguma.
Não que seja errado compreender, analisar uma obra de arte, mas isso se faz posteriormente, não acham? Primeiro, se sente, depois se analisa.
Mas ele não quer saber: posta-se defronte a um quadro, bota o dedão no queixo, o indicador na bochecha e vai: “Hum… [calma, meus leitores, é só ele pensando o quadro e não incorporando o Preto Velho] A pincelada rápida misturada a esse amarelo diurético sobre a casa possibilita a execrabilidade da condensação teórica da pobreza humana, ressaltada pelo azul daltônico da paisagem ao fundo – o que nos traz à baila a questão da supervalorização política”, como se a arte fosse apenas signos.
Uma vez, fui à Oca ver a exposição que se fazia do Picasso. Boa, comentário à parte. Lá vi um grupo de pessoas, jovens e adultas, olhando “O Violinista” (perdoem-me se erro o título. Mas dá para saber qual quadro é, não? Estilo cubista.) – do modo que descrevi acima. E enquanto eu olhava as outras obras daquele andar em questão, eles iam descobrindo as partes do corpo do coitado: “Aqui em cima, está vendo?, achei a cabeça”; “Ah! Aqui só pode ser o violino.”; “Não, não acho não: tá muito quadrado pra ser”.
Ora, mesmo na vida não vivemos porque sentimos? É claro que pensamos – uma coisa não é isolada da outra. Mas não há razão no sentir? Quando Sócrates desfiava suas teorias, ele por acaso não as sentia antes, isto é, não as compreendia, de maneira superficial, genérica, primeiro para depois analisá-las com mais afinco? Portanto, há razão no sentir, mas há o sentir em primeiro plano. Afinal de contas, quando nascemos e o médico nos dá um tapa na bunda, não pensamos: “Hum… Essa ardência que ora sinto vir de minhas nádegas e percorrer meu corpo está associada ao conceito de dor que meu cérebro interpreta como tal. Hum… A reação para isso é chorar”. E Buá: choramos. Não. Simplesmente sentimos dor e choramos, não é isso?
Então não entendo por que esse pessoal insiste em cuidar que a arte seja mera busca de significados, fingindo sentir alguma coisa com isso – porque duvido que alguém sinta alguma coisa vendo um chinelo “espermatozoidado”. Só o Marquês de Sade mesmo.
Isso me parece mais uma incapacidade artística, uma deficiência que se tenta esquecer e seguir em frente.
Não dá. Não se apaga da memória uma deficiência assim: se convive com ela.
Eu mesmo: adoraria saber cantar – não sei; e toco como digito este texto (imaginem só). Mas aceito essa minha carência. Por que tenho outros dons? Sim, exatamente por isso. Se todo mundo pudesse ser artista, os gregos não teriam imaginado doze deuses com talentos diferentes, se é que vocês me entendem.
A arte é, sobretudo, sentir, sensações, sentimentos. Não gostamos de um quadro porque ele tem idéias bacanas, revolucionárias, inspiradoras, mas porque ele nos faz sentir alguma coisa bacana, revolucionária, inspiradora. E a forma como ele é feito é que nos cativa desse jeito.
É por isso que não entendo esse pessoal contemporâneo…
ATENÇÃO: Ler é prejudicial à saúde!
Pesquisas comprovam que o indivíduo que lê, aprecia a boa arte, tem a mente ativa, geralmente morre mais cedo do que a média, é mais estressado que a maioria da gente e, conseqüentemente, mais infeliz.
Eu sou um cara extremamente preocupado com minha saúde; e não desejo ir pro inferno bater um papo com Dante assim tão cedo, apesar de a idéia de voar às costas de Gérion não seja lá algo tão desinteressante… Imaginem: ser carregado por Efialtes!…
De qualquer forma, essas pesquisas me preocuparam, pois, como todos sabem, gosto de dar uma folheadinha nas páginas de um livro qualquer, mas que me interesse, e ver obras de umas mulheres, nuas ou quase, e às vezes até sem olhos, de vez em quando. Agora, depois que soube dessas pesquisas, meu coração acelerou mais do que o normal. Fui ao médico, e ele me disse: “Respire… Diga trinta e três… É, não tem jeito: a única coisa a fazer é dançar um tango argentino…”. Nesse momento, pude mesmo ouvir uma voz (como aquela de Zeus gritando “Evoé!”) em minha cabeça, que me disse: “Vai, Rodrigo, quem mandou ser gauche na vida”.
Eu não mandei, tenho certeza. Mas se souber quem mandou…
Não que eu vá esmurrá-lo ou coisa parecida; mas o porei, lá no inferno, na vala do Lula e do Paulo Coelho. Isto é, se o Belzebu deixar, claro.
Estou num mato sem cachorro, meus amigos. Vejo-me condenado ao estresse, à infelicidade. Pensei em deixar a pena de lado e me dedicar a qualquer outra coisa; vender meus livros do Machado e comprar uns outros de auto-ajuda (agora entendo porque muitos dizem que os psicólogos são matéria morta…); deixar de ir ao MASP, à Pinacoteca, e ir mais à palestras sobre saúde mental.
Mas é difícil, pois quando não é a minha Musa, que me vem toda sensual, ui!, chamando-me pelo diminutivo, é o Van Gogh que me vem mostrar o quarto dele.
É… acho que só me resta mesmo dançar um tango argentino.
Que assim seja, então.
Evoé!